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quinta-feira, 27 de abril de 2017

24.4.17 - Marrakesh | Tizi n`Tichka | Ourzazate

Começou a aventura!
Finalmente saíumos das auto-estradas e começamos a ver o reino encantado de Marrocos.
saímos de Marrakesh pela manhã, depois das forças estarem retemperadas e rumamos a este, para atacarmos o Atlas e o Sahara pelo sul. O plano era fazer o máximo de quilómetros possível e ir até Agdz ou Zagora.
Após poucos quilómetros, antes da subida para Tizi n`Tichka, o primeiro contratempo: a tampa que faz a afinação da corrente da minha moto saltou fora e a corrente começou a ficar laça. Por sorte, tudo se passou em frente a um serralheiro que, tal qual a Ferrari na F1,  tratou de fazer uma peça em 5 minutos e afinamos a corrente.
Que bem que ficavam as nossas motos brilhantes no meio das mobiletes que pairavam  na oficina.
3 euros para o trabalho do homem e ainda deu para a gorjeta!
Por entre vales e montanhas, florestas lindíssimas com nomes como Iggerouka, Tagargoust, Toufligt, fomo-nos cruzando por várias motos, de vários tipos e feitios.
Numa BMW, uma simpático casal australiano, que fomos encontrar lá no alto de Tizi n`Tichka, a 2.000 metros de altitude, com quem estivemos em amena cavaqueira.
Depois de fotos e conversas, continuamos por uns quilómetros na N9 até tomarmos um caminho de cabras - e burros, literalmente - fugindo ainda mais à civilização.
Na beira da estrada, um estalajadeiro de uma casa pequena recebeu-nos simpaticamente e comemos uma tajine de kaka que estava divinal.
Depois do demorado almoço, prosseguimos viagem por paisagens áridas, aldeias perdidas no tempo, caras estranhas à nossa passagem.
Chegamos a Ourzazate às cinco da tarde e as opções eram várias: prosseguir viagem por mais uma ou duas horas, ficar no centro da vila ou ir até ao Oásis de Fint ver se poderíamos dormir lá. Optamos pela última.
No caminho, um estradão de terra e pedra, o Diogo viu o suporte da máquina de filmar partir e desaparecer da nossa vista.
No Óasis, um verdadeiro oásis de palmeiras e charcos de água com rãs, onde tiramos fotos das motos a atravessar a água e com uns miúdos que jogavam à bola com outros turistas.
Um dos miúdos deu-me um camelo feito de folhas de palmeira e saltou para cima da moto.
A noite punha-se e não havia lugar onde ficar, excepto numa garagem ou numas tendas isoladas, sem luz e cheias de melgas.
Optamos por voltar a Ourzazate.
Pela pista, à noite, alguém com 15 anos, mais coisa menos coisa, de bicicleta, um local, pediu para parar. Queria água, estava exausto. Não tinha nenhuma garrafa e tirei a que estava na moto do Fernando. Chorei ao imaginar o que custa viver.
Na cidade o destino era o Ibis... Mas o hotel ao lado custava metade e fomos para lá.
Num jantar tardio de tajines e cucus, o restaurante serviu-nos cerveja geladinha. Resultado: 30 euros de comida e 38 euros de cerveja. Nada mau para um país muçulmano!





domingo, 9 de abril de 2017

9.4.17 - O.Azeméis | Góis | Arganil | Piódão | O.Hospital | Nelas | Viseu | Cinfães | O.Azeméis

O sol e o calor voltaram  e o dia de hoje poderia ser uma maratona pelas mais emblemáticas regiões vinículas de Portugal: Dão, Douro e um cheirinho de Bairrada quando passamos ao lado de Anadia e de Souselas.
Três peças da da melhor engenharia de duas rodas e respectivos donos juntaram-se para uma volta há muito prometida. Norte, ou Sul? Fomos para sul para para a região centro, para a "floresta portuguesa", reviver tempos mais curtos ou longos, tendo como ponto central o Piódão.
Pela auto-estrada e depois pelo IP3, rapidamente chegamos a Góis para a primeira pausa do dia, num café em cima do rio, onde o serviço foi tão rápido como a nossa viagem até então. Mas valeu a pena: a tosta mista deu para todos ( sim, era para todos ó menino Filipe, não te pusesses com esquisitices), apanhamos um pouquinho de sol e colocamos a conversa em dia.
Contei episódios recentes menos conseguidos por aquelas bandas, e como de lá do alto poderia vir ter cá abaixo, traçamos a rota e rumamos a Arganil.
Daí para a frente foi um livro aberto de recordações de ralis, desde os Vinho de Porto ao da Figueira da Foz, e mais recentemente do Rali Raid de Góis.
Em Arganil o sentido foi para Folque e Coja, ficando para trás o Colmeal: pelo asfalto até à Casa do Guarda, por uma floresta que se adensa com as nossas espécies, fazendo esquecer o país do eucalípto.
Na Casa do Guarda, uma paragem obrigatória na curva que outrora era em terra e que pilotos como o Vatanen, Biasion, Alen e tantos outros, fizeram sonhar gerações inteiras de portugueses.
Com um vento matreiro, fomos empurrados serra abaixo até uma das mais pitorescas aldeias de Portugal, dada a conhecer ao Mundo pelo saudoso César Torres: o Piódão.
Encastradas na serra, casinhas de xisto fazem lembrar uma aldeia de um presépio, abandonado pelo tempo, com um riacho que se transforma em praia fluvial uns quilómetros mais abaixo.
A estória do Carteiro António e a da capela de S.Pedro confundem-se e abram o apetite para um bucho de porco e uns queijos de algumas ovelhas que certamente se cruzaram connosco na estrada.
Com o estômago tão cheio como o do porco que acabávamos de comer,  fizemo-nos à estrada em direcção ao Douro, percorrendo os folhos da Serra da Estrela, por Oliveira do Hospital e Nelas, emprestada em contos pela escrita de António e João.
"Enrolar punho" foi a palavra de ordem e só foi desfeita com a paragem em Viseu para os Viriatos e Rotundinhas. Com tantos pecados no trânsito, o da gula deverá ser o menor deles!
Nova paragem em Cinfães, para uma água, sem antes termos percorrido a Serra de Montemuro, pela N321, e observando o mundo lá de cima: de Montemuro à Estrela, como se de uma vasta planície se tratasse.
Do encadeado de Cinfães até casa, uma estrada perfeita no desenho das curvas e com os rios como cenário de fundo ( Paiva e Douro), o ronco dos motores ecoou e ficou a promessa de novas viagens.






domingo, 27 de dezembro de 2015

27.12.15 - Abrantes | Mora | Alcaçovas | Aljustrel | Ameixial | Faro

O sol brilhava no Tejo, estava cheio de vontade de andar de moto, reinando a boa disposição. A cantar qualquer coisa do Jorge Palma, foi com rapidez que alcancei Ponte de Sôr, Montargil e Mora.
Entre Ponte de Sôr e Montargil, pelo "pequeno" jacto privado estacionado no aeródromo, as casas e condomínios sobre a albufeira da barragem e alguns carros, parecia que estava na Suíça.
Em Mora,  ao entrar na vila, tive uma visão australiana: para divulgar o fluviário, colocaram na estrada placas amarelas com as espécies que se podem encontrar nos rios, a exemplo do que se vê com cangurus, crocodilos e tubarões, na Austrália. Muito giro!
Também em Mora tive a primeira paragem demorada do dia: encher o depósito e contar a razão da minha viagem à gasolineira, cujo sobrinho tem um carro muito bom e também anda muito depressa até chegar ao Algarve.
Moto atestada de gasolina, foi tempo de rumar a Alcaçovas. Não sei por que razão, fiz esta parte do percurso muito mais devagar do que tinha vindo até então.
A partir daqui comecei a ver algo que gosto muito: o montado. Aquilo que deveria ser a agricultura portuguesa, a bem da qualidade e sustentabilidade: o sobreiro, o porco e os restantes animais. Num ecossistema perfeito, numa simbiose única que se nota na qualidade dos produtos que chegam à nossa mesa.
Em Alcaçovas, dado o programa da SIC Notícias " Ir é o melhor remédio", com Teresa Conceição e Martin Cabral, procurei o Museu do Chocalho. " Fechado, é domingo". A fábrica, igualmente fechada.
Queria um chocalho, agora que é património imaterial da humanidade, e consegui que um senhor me fosse abrir a sua loja para eu comprar um. Usado, mais bonito que os novos que ainda brilham muito. " Sabe, eu também fabrico mas não faço publicidade disso", disse-me o senhor a medo.
No Torrão tirei fotos na entrada da vila, junto à fonte; a partir de Odivelas, mas especialmente depois de Ferreira do Alentejo, o vento foi muito, provocando alguns calafrios: ora era um travão ora me empurrava lateralmente.
Depois de Ervidel, junto à Barragem do Roxo, vi um grupo de caçadores. Era hora do almoço e parei a perguntar onde podia almoçar bem e produtos regionais: "entra em Aljustrel que é tudo bom". Fui ao Cabecinha.
De entradas serviram-me um paio de porco preto e salada de ovas. O paio estava magnífico. Depois, uma sopa de cação, com muito pão, coentros e duas postas generosas de peixe. Um sabor divinal!
Depois de almoço, em vez da sesta, fiz-me à estrada.
Com o vento forte, queria passar rapidamente Castro Verde e Almodôvar e entrar na Serra do Caldeirão, para estar mais abrigado. Assim foi.
Quando comecei a subir o Caldeirão, o vento parou. Com as curvinhas do Caldeirão, senti-me um Rossi, com a bota a roçar a estrada por diversas vezes, num carrossel estonteante. Sobe e desce, curvas abertas, rápidas e curvas apertadíssimas, feitas em 2ª e 1ª velocidade, com o joelho a ir ao chão. Loucura, bem dizia a placa que esta estrada á património!
Não sei se é o destino, se é feitio ou o meu medo de ficar sem gasolina: a exemplo de todas as vezes que passei aqui de carro, parei na bomba de gasolina do Ameixial onde, o mesmo gasolineiro com um casaco do ACP Rali de Portugal, me serviu. Mais dois dedos de conversa antes de rumar a Faro e ao marco número 737.
Perdi-me em S. Brás de Alportel - não havia indicações da N2 - em Faro tive que atalhar devido às obras na cidade mas cheguei ao dito cujo marco.
Que alegria! Parecia que tinha ganho uma corrida.
Foi um marco, foi um check no meu mapa de viagens.
Aconselho vivamente a fazerem este percurso, de moto, carro ou bicicleta. Aproveitem.
Uma estrada que tem 737 motivos de interesse, que passa por localidades lindíssimas do nosso Portugal.
Eu fiz em dois dias porque conheço a maior parte dessas localidades; mas pode demorar uma semana ou mais, sendo que há tanta coisa para ver, ler, comer, beber, viver. Passei por 10 distritos, inumeras aldeias, vilas e cidades. Vi aves de rapina, cegonhas, pardais, garças, porcos, vacas, ovelhas, cavalos. Estive na serra e no campo, cruzei o Douro, Mondego, Zêzere e o Tejo, apenas para referir os maiores. Passei imensas albufeiras e barragens.
Jogar com números e tirar fotos nos marcos desses números é um must: 100, 357, 555, 666, apenas para dar alguns exemplos.
Portugal tem, no máximo 561 km de comprimento, desde Melgaço ao Cabo de Santa Maria. A estrada tem 737 km, ou seja, quase duzentos quilómetros de curvas que acrescentam interesse.
Neste momento descanso no Stay Hotels de Faro. Central acessível, uma simpatia de atendimento, um bom banho e excelente cama: o luxo q.b. para um aventureiro solitário.
Abraço, amanhã regresso a casa.







26.12.15 - Oliveira de Azeméis | Chaves | Lamego | Penacova | Abrantes ( N2)

Há quem tenha a Route 66, a Carretera Austral, a Panamericana. Nós temos a Nacional 2: de Chaves a Faro, outrora um conjunto de Estradas Reais e Nacionais que, em pleno Estado Novo, se uniram para ligar o topo norte ao topo sul do país.
Um percurso lindíssimo, num sobe e desce entre serras e vales, uma espinha dorsal do que deveriam ser as cidades e vilas mais importantes do país.
Há anos que queria fazer este percurso - com o João, o Nico e o Domingos, de Mustang - mas nunca houve oportunidade. Fim-de-semana natalício, temperatura elevada para a altura e céu limpo: eis o que eu necessitava.
Saí de Oliveira de Azeméis às 8:30 da manhã, em direcção a Chaves. Não é importante, apenas descrevo porque foram quilómetros acumulados. A32 e autoestradas seguintes, a velocidade constante para não estragar os pneus da Transalp.
Chegado a Chaves foi tempo de atestar o depósito, comer uma maçã, tirar a foto junto do marco da estrada com o Km 0 e... seguir viagem.
Às 10:30 o sol subia e aquecia o ambiente. Conduzia animado, contente por estar ali, cantarolava Chico Buarque na ecofonia do capacete.
A exemplo de como a estrada Nacional 2 surgiu, como um conjunto de várias estradas, retalho do país, também eu já tinha estado em vários locais da Nacional 2.
Assim, de Chaves até Vila Real, passando por Vidago e Pedras Salgadas, não parei. Já o tinha feito em Fevereiro.
O mesmo em Vila Real, estive lá a correr aquando da visita do WTCC.
Descendo de Vila Real para Sta. Marta de Penaguião e o Douro, a Régua, pelo zigue-zague que percorre os socalcos do nosso melhor néctar. Também não fiz nenhuma paregem prolongada, apenas desfrutei a condução.
Assim, a primeira paragem a sério foi em Lamego. No centro da cidade, parei em plena praça que acolhe a escadaria do santuário da Nossa Senhora dos Remédios, para tirar uma foto com a moto. Ou pela ousadia ou pelo amarelo fluorescente das malas da Alpinestars, fui o centro das atenções.
De Lamego segui para Viseu.
Se até aqui a Estrada Nacional 2 estava bem assinalada, depois desaparecem as placas, os marcos não são bem visíveis e parece que não há interesse turístico em manter este ícone das roadtrips. Custa tão pouco...
De Lamego segue-se para Castro Daire e, depois, para Viseu. Como não choveu muito, a estrada continua bonita, avermelhada e castanha, com as cores de Outono que vi há dias.
Em Viseu voltam a desaparecer as placas da Nacional 2. Mas com recurso ao GPS lá consegui encontrar o rumo e seguir para Tondela e, depois, Santa Comba Dão.
Se até aqui a estrada era em zigue-zague, depois de Viseu a estrada entrou num eixo mais certo rumo a sul.
Em Santa Comba foi tempo de voltar a atestar o depósito para, quilómetros depois e após a Aguieira, parar junto ao Mondego, em Penacova, para tirar fotos.
Góis, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos. Nomes do Rali de Portugal, por onde passei, com que sonhei, em tempos, realizar em carros de competição.
Por falar em nomes, a Nacional 2 está repleta de nomes das nossas piadas: "Colo do Pito", "Picha", "Venda da Gaita", "Escalos de Baixo". Até nisto o percurso é rico!
De Góis até Pedrógão o zigue-zague voltou; de tal forma que, sabendo que deveria rumar a sul, pela posição do sol andei muitos quilómetros para norte, este e oeste.
Cruzei o Zêzere na Barragem de Cabril e, de lá, vi o sol a baixar por entre pontes. Um escarpa separa a antiguidade da modernidade, como que a altura que separa as pontes sejam a diferença civizacional. Será?!
Na Sertã as iluminações de Natal davam um brilho diferente ao rio, com muitas famílias a aproveitarem o fim do dia de inverno para passearem..
O sol ia-se pondo atrás das montanhas e o frio passava o casaco e as calças.
Debaixo de um céu avermelhado, com as estrelas a começarem a aparecer, cruzei Vila de Rei em direcção a Abrantes.
Nove horas e meia depois de começar a andar, parei. Quase 600 km depois de sair de casa é tempo da moto descansar; e eu também. Amanhã deverei chegar a Faro.