sexta-feira, 15 de julho de 2016

10.7.16 - Arrábida

O importante nas viagens é ir. Ter vontade e ir por aí, não importando se é de carro, moto, autocarro, bicicleta, a pé. O acto de viajar é, primeiramente, mental; só depois é que vem o meio.
Nesta questão de ir, não importa onde se começa e onde se acaba. Importa o conteúdo, a felicidade,  a partilha; a vontade de ir mais longe.
E para viajar, pela natureza, pela história, pela gastronomia, pelas pessoas, não é necessário sair de Portugal. Temos sítios lindíssimos que merecem ser visitados e conservados.
A Serra da Arrábida é um desses locais: encravada entre o Atlântico e o deserto da margem sul - local de habitação de gente que veio do Alentejo e de África a seguir ao 25 de Abril - , terra de pescadores, ferroviários, de gentes da CUF que deram vida ao Barreiro, Seixal, Trafaria, de homens do campo; e artesãos, artistas que encontraram um pequeno paraíso às portas de Lisboa. Ao fundo Tróia e a areia límpida, ao perto escarpas e florestação, promontórios tão belos que sustêm a respiração.
Visitar a Arrábida não tem uma ordem certa. Eu comecei a visita pela Fonte da Telha e o seu enorme areal com as casas a invadirem as dunas e a areia a cobrir o pouco asfalto que existe.
Entre redes e outros artefactos da faina, tasquinhos com peixe fesquíssimo, apanhado ali à linha e grelhado num fogareiro ao nosso lado.
Não havendo estrada para seguir em frente - tendo ficado a promessa de uma caminhada pelo areal até à lagoa - é necessário ir quase até Fernão Ferro e seguir pela N 377. Aí vale a pena ir à Aldeia do Meco e ir virando nas várias estradas e vielas que nos encaminham para o areal, a lagoa ou a mata.
No final da N 377, em Sesimbra, é obrigatório uma ida ao Cabo Espichel.
Abandonado, inóspito - começaram recentemente a recuperação - , tem a magia de um grande local de peregrinação do passado, um sítio onde a história deixou a sua marca.
Em baixo, vertiginosa, a Baía dos Lagosteiros. No topo, um farol que ilumina os navegadores.
Em redor, desde o século XIV, a Ermida, a Igreja da Nossa Senhora do Cabo, a Casa dos Círios, a Casa da Água, o Aqueduto.
Recondito, apaixonante, fui lá encontrar um grupo de motards espanhóis que partiram das Astúrias em busca do belo Portugal.
Regressando a Sesimbra, é obrigatório entrar na M 525 e, depois, a N 379-1, num zigezaguear constante, entre a escarpa e o mar, num verde azulado lindo, que nos leva emocionantemente, serra abaixo, até ao Portinho da Arrábida.
Descendo por um "saca-rolhas" digno de Laguna Seca, por entre um muro que diz que Sebastião da Gama viveu ali e "O sorriso do mar! Ó búzio longo", avista-se, por entre as arvores, a pacífica baía, postal ilustrado do paraíso na Terra. Meia dúzia de casas e restaurantes, apoiados em estacas já pelo mar, pitoresco é o que mais apetece chamar.
Apesar de gélida, a água convida a um mergulho; e usando uma máscara e barbatanas, é vida que nada debaixo dos nossos corpos.
O Portinho é um lugar digno de amantes, de férias de verão e das suas paixões, ao que eu termino os versos de Sebastião da Gama acrescentando "Eu não quero cantar-te, minha Amante, | Minha Mãe, minha Irmã, minha Senhora; | eu só quero entender-te toda a vida | como te entendo, Serra! nesta hora.". 
Com o pôr-do-sol a surgir no horizonte, há duas hipóteses para terminar a ronda pela Arrábida: choco frito e salmonetes em Setúbal ou queijo, tortas e vinho em Azeitão.
Qualquer uma delas, uma excelente escolha.






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