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segunda-feira, 6 de maio de 2019

1.5.19 - Fafe | Vieira do Minho | S.Bento Porta Aberta | Soajo | Cascata do Arado | Venda Nova | Chaves

Como nas refeições preparadas pelos grandes chefes, há sempre um prato principal. As entradas e a sobremesa, assim como os vinhos e os tira-sabores, são complementos que tornam as criações divinais porque o olfato e o palato está absorvido e predisposto a ter uma experiência.


Com três dias de viagem pela frente, preparei dois pratos principais - Gerês e Montesinho -, aos quais juntei tudo o resto, digno de figurar num qualquer guia com Estrela Michelin.

Fafe foi o local onde disse adeus à autoestrada e iniciei o “Road to National Parks”.
Queimadela, Várzea Cova, Gontim, Aboim, passar em estradas de asfalto que cruzam a terra e onde sei que se salta, que se atalha, por 1001 incursões pelas terras da gente dos ralis; descer para Vieira do Minho, pelo Ermal, ver o Rio Ave como um fiozinho de água límpida que se perde na montanha e transformar-se, como um super-herói, numa massa enorme de água, local de recreio de milhares de pessoas nos dias quentes de verão.

Tudo a grande velocidade, com os Creedence a ecoarem na minha memória e fazendo-me cantarolar enquanto me divirto a subir e descer, acelerar e trocar de caixa a ouvir o ruído metálico, como se de um punção se tratasse; a reduzir e a ouvir os ratéres tão característico.
Cheguei a Vieira do Minho e, certamente, tinha um sorriso nos lábios: estava de volta às viagens, ao prazer de conduzir uma big trail até ao sol se pôr, por aí algures. De acelerar, de ir  com o joelho quase ao chão nas curvas mais apertadas, num carrocel entre a floresta típica portuguesa e os rios e o abismo.
Descer até às pontes do Cávado e subir a São Bento da Porta Aberta: o local de paragem nas viagens da escola, onde se compravam bugigangas - que não interessavam a ninguém - mas que eram o motivo do nosso orgulho de criança ao oferecer um galo de Barcelos que mudava a cor conforme a humidade, à mãe. Ou um corta-unhas com a imagem dos espigueiros do Soajo; ou sei lá mais o quê, na ínfima cultura popular de objectos de uso diário.


Por falar em Soajo, o destino seguinte seria esse. Para lá chegar, curva-contra-curva até ao que foi Vilarinho da Furna e, depois, Germil.
Em Vilarinho da Furna tive o momento 007 da viagem, ao descer por uma estrada de terra até à base do muro da barragem e ficar por baixo da turbina, com a água a sair a grande pressão mesmo por cima de mim. Tentei, por várias vezes, fazer poses para tirar uma fotografia de efeito minimamente interessante, com a perpectiva do jorro de água. Fiquei pelos mínimos!
Chegado ao Soajo, com os majestosos espigueiros que se erguem para o céu, o estômago ergueu-se igualmente e clamou por atenção. De nada lhe serviu porque os poucos restaurantes estavam a abarrotar.
Meia volta e fui até ao Lindoso onde, no Dia do Trabalhador, apenas um restaurante manhoso com diárias a condizer me serviu um bife de frango grelhado com batatas encharcadas em óleo. Ao jantar vingo-me, pensei. E assim o fiz! Mas já la vamos.
Queria ir à Cascata do Arada e o melhor caminho era dar o salto para Espanha e voltar a entrar pela Portela do Homem.
Pelo meio do trânsito infernal de turistas em dia de feriado a aproveitar o bom tempo, cavalos selvagens e manadas de vacas e bois mostravam os seus mais variados dotes, dando um ar ainda mais pitoresco a toda a cena. Nas cascatas que embelezam a serra, pessoas de todas as idades divertem-se como se estivéssemos em pleno verão, mostrando os seus corpos ainda brancos à espera que uma qualquer cor se pegue aos pigmentos.

Por estradas municipais e caminhos de cabras, fui a Fafião, Cabril e subi até à barragem de Paradela. Com tamanha emoção, esqueci-me que a moto também necessita de alimento e, de lá do alto da Barragem da Paradela até à Venda Nova, tal como se vê no mapa, foi colocar a mão na embraiagem e vir a lanço, Portugal abaixo, para conseguir meter gasolina.
Era final do dia e Chaves estava ali, depois da N103, cheia de encanto.
Realizei a última parte da viagem a cantar, a curtir, a tirar verdadeiro prazer de condução da moto. Foi assim o dia todo!
Cheguei a Chaves e ergui o punho no ar, como se tivesse ganho alguma coisa.
A primeira etapa estava terminada e, ao jantar, ao acompanhar uma cabidela, o encontro com amigos das corridas e das viagens. O mundo é uma ervilha!


domingo, 27 de dezembro de 2015

26.12.15 - Oliveira de Azeméis | Chaves | Lamego | Penacova | Abrantes ( N2)

Há quem tenha a Route 66, a Carretera Austral, a Panamericana. Nós temos a Nacional 2: de Chaves a Faro, outrora um conjunto de Estradas Reais e Nacionais que, em pleno Estado Novo, se uniram para ligar o topo norte ao topo sul do país.
Um percurso lindíssimo, num sobe e desce entre serras e vales, uma espinha dorsal do que deveriam ser as cidades e vilas mais importantes do país.
Há anos que queria fazer este percurso - com o João, o Nico e o Domingos, de Mustang - mas nunca houve oportunidade. Fim-de-semana natalício, temperatura elevada para a altura e céu limpo: eis o que eu necessitava.
Saí de Oliveira de Azeméis às 8:30 da manhã, em direcção a Chaves. Não é importante, apenas descrevo porque foram quilómetros acumulados. A32 e autoestradas seguintes, a velocidade constante para não estragar os pneus da Transalp.
Chegado a Chaves foi tempo de atestar o depósito, comer uma maçã, tirar a foto junto do marco da estrada com o Km 0 e... seguir viagem.
Às 10:30 o sol subia e aquecia o ambiente. Conduzia animado, contente por estar ali, cantarolava Chico Buarque na ecofonia do capacete.
A exemplo de como a estrada Nacional 2 surgiu, como um conjunto de várias estradas, retalho do país, também eu já tinha estado em vários locais da Nacional 2.
Assim, de Chaves até Vila Real, passando por Vidago e Pedras Salgadas, não parei. Já o tinha feito em Fevereiro.
O mesmo em Vila Real, estive lá a correr aquando da visita do WTCC.
Descendo de Vila Real para Sta. Marta de Penaguião e o Douro, a Régua, pelo zigue-zague que percorre os socalcos do nosso melhor néctar. Também não fiz nenhuma paregem prolongada, apenas desfrutei a condução.
Assim, a primeira paragem a sério foi em Lamego. No centro da cidade, parei em plena praça que acolhe a escadaria do santuário da Nossa Senhora dos Remédios, para tirar uma foto com a moto. Ou pela ousadia ou pelo amarelo fluorescente das malas da Alpinestars, fui o centro das atenções.
De Lamego segui para Viseu.
Se até aqui a Estrada Nacional 2 estava bem assinalada, depois desaparecem as placas, os marcos não são bem visíveis e parece que não há interesse turístico em manter este ícone das roadtrips. Custa tão pouco...
De Lamego segue-se para Castro Daire e, depois, para Viseu. Como não choveu muito, a estrada continua bonita, avermelhada e castanha, com as cores de Outono que vi há dias.
Em Viseu voltam a desaparecer as placas da Nacional 2. Mas com recurso ao GPS lá consegui encontrar o rumo e seguir para Tondela e, depois, Santa Comba Dão.
Se até aqui a estrada era em zigue-zague, depois de Viseu a estrada entrou num eixo mais certo rumo a sul.
Em Santa Comba foi tempo de voltar a atestar o depósito para, quilómetros depois e após a Aguieira, parar junto ao Mondego, em Penacova, para tirar fotos.
Góis, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos. Nomes do Rali de Portugal, por onde passei, com que sonhei, em tempos, realizar em carros de competição.
Por falar em nomes, a Nacional 2 está repleta de nomes das nossas piadas: "Colo do Pito", "Picha", "Venda da Gaita", "Escalos de Baixo". Até nisto o percurso é rico!
De Góis até Pedrógão o zigue-zague voltou; de tal forma que, sabendo que deveria rumar a sul, pela posição do sol andei muitos quilómetros para norte, este e oeste.
Cruzei o Zêzere na Barragem de Cabril e, de lá, vi o sol a baixar por entre pontes. Um escarpa separa a antiguidade da modernidade, como que a altura que separa as pontes sejam a diferença civizacional. Será?!
Na Sertã as iluminações de Natal davam um brilho diferente ao rio, com muitas famílias a aproveitarem o fim do dia de inverno para passearem..
O sol ia-se pondo atrás das montanhas e o frio passava o casaco e as calças.
Debaixo de um céu avermelhado, com as estrelas a começarem a aparecer, cruzei Vila de Rei em direcção a Abrantes.
Nove horas e meia depois de começar a andar, parei. Quase 600 km depois de sair de casa é tempo da moto descansar; e eu também. Amanhã deverei chegar a Faro.









quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

22.2.15 - Vidago | Chaves | Braga

Saindo de Vidago para Chaves, pela "Rota da Água Termal", o céu ameaçava chuva; contudo a ida a Chaves era obrigatória para comprar pasteis e bola. E que boas que estavam!
Daí o destino final era Braga, apontado a chegada para a hora do almoço.
Pela N 103 - fazendo pequenos desvios pela N 312 -  percorri aldeias que outrora foram de pessoas mas, hoje, só a solidão as habita. Aldeias perdidas no meio das serras, de onde gente fugiu para a cidade, perdendo-se por aí.
Com a chuva e o nevoeiro, na falta de luz para fotografar, restou-me falar e ouvir estórias e histórias de famílias numerosas, de capelães, de doutores, de políticos de ontem e de hoje.
Até Vieira do Minho o percurso foi traçado por um Portugal profundo e deserto, no qual ninguém tem interesse em mostrar e analisar.
Contrastando com isso, a barragem da Caniçada. Uma das portas para o Gerês e um sítio que alguns tentam - com um novo-riquismo atroz - transformar numa espécie de Lago Como do Alto Minho, a grande bacia proporcionada pelo Cávado.
Felizmente a paisagem sobrepõe-se a tudo isso e é possível encontrar a natureza no seu estado mais puro.
Descendo até Amares e, depois, seguindo para Braga, depressa - pelo adiantar da hora -, porque um bacalhau e um Alvarinho esperavam no S.Frutuoso.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

21.2.15 - Vidago | Pitões das Júnias | Lindoso | Soajo | Monção | Vidago

Tendo como base a pacata vila de Vidago, outrora famosa pela água e o caminho do Santiago, fui presenteado por um dia frio e com o S.Pedro a ser amigo: fazendo desaparecer a chuva e trazendo os raios de sol para iluminarem um caminho traçado por entre picos e vales, com muito ver e água, desde Vidago até ao ao coração do Gerês.
Saindo de Vidago em direcção a Boticas, depois de cruzar o Tâmega, a estrada é tortuosa pelas curvas e a sua inclinação. Chegado ao topo poder-se-à pensar "valeu a pena", "é lindo". A agrura das pedras estende-se até ao rio Rabagão e à barragem de Pisões. Um espelho de água enorme reflecte o sol, as nuvens, o azul do céu, tornando aquele local paradisíaco.
Deixando o Rabagão para trás, o zigue-zague continua a até à barragem do alto Cávado: a espectacularidade dada pela dimensão do Rabagão transforma-se em cozy pela pequenez desta barragem.
Entrando no Parque Nacional Peneda Gerês, numa zona de planalto, vamos em direcção a Pitões das Júnias e a agrura da paisagem comprime-nos: como se inspirariam os neo-realistas?!
Manadas dos melhores exemplares barrosãs saúdam-nos na estrada e quase não nos deixam continuar caminho.
Para abrir o apetite para o almoço, um pequeno trekking para apreciar a cascata que emerge da rocha e o mosteiro. Com o sol mais forte, mais alto, visualizei o postal perfeito.
Por falar em almoço, no acolhedor Casa do Preto, devido à simpatia da dona, deliciei-me com "ceboleira" e posta barrosã, acompanhadas de um Alvarinho. O restaurante não está referenciado nos guia Michelin nem na redes slow food mas a qualidade do que apresenta é soberba. Ali come-se o que a terra dá, literalmente! As vacas, os cabritos e as galinhas são expostos no menu, em fotografias, passeando pelo campo e com a identificação do produtor.
Depois do excelente almoço foi tempo de rumar a Espanha, para voltar a entrar em Portugal no Lindoso.
Por Mugueimes, e Lobios vi o Lima crescer: ora largo ora estreito, dadas as barragens que criam a paisagem.
Entrando em Portugal pelo Lindoso, o rumo era o Soajo.
Os espigueiros - ou canastros, como se diz em algumas terras - erguem-se para o céu guardando os proveitos da terra. Com cruzes altas, parecem pedir a Deus que estejam sempre cheios.
O regresso foi feito pela rota do vinho verde, por Monção, passando pelo Palácio da Brejoeira.
Daí, de volta a Espanha, em direcção a Verín, e depois Chaves e Vidago.