domingo, 14 de agosto de 2016

10.8.16 - Lisboa | Évora | Alcáçovas | Alcácer do Sal | Lisboa

Portugal arde e as imagens da TV chegam até à varanda de casa, com o incêndio de zona de Loures a afogar Lisboa em fumo.
"Que farei quando tudo arde", de Sá de Miranda, de Lobo Antunes, um retrato de um país visto por várias pessoas. Tão actual o título como o conteúdo: as minhas viagens - apesar de não ser filho de um travesti - num país que se consume diariamente num fogo físico, mental, corrupto. Serão as viagens um ponto de partida? Um ponto de fuga? Serão, certamente, uma forma de estar.
Fugindo do fumo de Lisboa cruzei a ponte Vasco da Gama e, ao chegar à outra margem, dezenas de homens debatem-se com a lama para chegar às suas embarcações; a pesca no Tejo, o trabalho dos marnotos do Samouco, a seca do bacalhau, contrasta com a ponte e o pós-moderno Freeport.
Depois da ponte, o caminho é pela lezíria em direcção a Montemor. Pelo meio ficaram Pegões, Vendas Novas e as suas famosissímas bifanas, toiros e cavalos que povoam a paisagem.
Em Montemor conheço o L`and Vineyards, ainda do tempo da Estrela; mas a palavra contenção tem que existir no meu dicionário e, por isso, o castelo ficou para trás e rumei à fortificada Évora.
Com a moto parada entre tantas outras no Giraldo, cada uma com a sua história para contar, é obrigatório, como Vergílio, percorrer as arcadas, mirar o Central, e prosseguir até ao 1/4 para as 9. Fechado!
Uma sopa de cação e um fino, ou imperial, foi o repasto antes da segunda tirada do dia. Mas primeiro, uma ida obrigatória ao Templo, a pé, ao abrigo da sombra, recordando tempo passados na vila romana.
Na moto, como um cavaleiro destemido e sem o casaco da Alpinestars, prossegui a grande velocidade até Alcáçovas. Entre o amarelo da paisagem, da palha seca, de azinheiras plantadas de onde em onde, de porcos na terra e cegonhas no ar, apesar do calor infernal, não vi ponta de fumo; apenas um azul lindo por onde o sol beijava a Terra.
Na vila que ficou reconhecida pelo chocalho, ao passar na loja em que comprei o meu, buzinei e levantei a mão em sinal de cumprimento.
De Alcáçovas a Alcácer do Sal foi outro instante entre as longas rectas e curvas feitas a grande velocidade, até que o Sado se abriu em toda a sua plenitude.
Passada a ponte de ferro, a Ponte Velha assente em carlingas e longarinas, o espelho de água do rio, à direita, e as dunas que nos levam à Comporta, à esquerda. Corvos marinhos, garças, juncos.
O sol deita-se sobre a água e o barco espera-nos em  Tróia.
Lindo este Portugal sem que o fogo o consuma.
A viagem foi rápida, apesar de demorar o dia todo; fi-la a olhar a paisagem, os montes, os riachos, os animais. Sem grande preocupação com fotografias ou em falar com locais.
Foi algo só para mim.







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